um desabafo honesto sobre a prática da escrita e o atrofiamento mental que me impede de escrever meus romances
de lá para cá, eu dei vida a histórias o suficiente para entender e respeitar o meu processo costurado.
tudo começa normalmente, pelo começo. literalmente. já que, ao contrário de muitas autoras que conheço, a sinopse é um dos primeiros checks que dou na hora de escrever um novo livro.
passo algum tempo desenvolvendo o prólogo, sabendo que voltarei nele quando tudo tiver sido desenrolado para trabalhar mais nos sentimentos do personagem. passo mais um bom tempo trabalhando no primeiro capítulo que, surpreendentemente, costuma vir bem fácil até a página 2.
é que eu amo inícios de histórias e quase sempre estou desesperada para iniciar uma nova jornada após terminar todo o meu exaustivo processo de revisão do livro anterior.
infelizmente, não posso dizer o mesmo das páginas e capítulos seguintes, porque mesmo que eu tenha feito um roteiro detalhado, ainda não conheço o suficiente daqueles personagens para mergulhar fundo em suas mentes e ter uma visão completa de suas motivações para serem como são.
é nesse momento que eu dou um salto para o futuro e começo a escrever alguma cena interessante do capítulo 10 e continuo até o capítulo 14 até, de repente, eu empacar em algum momento decisivo e, do nada, eu estou no capítulo 30 fazendo exatamente a mesma coisa. é assim que eu vou conhecendo os personagens, descobrindo como eles agiriam em determinadas situações e, muitas vezes, facilitando as tomadas de decisões dos capítulos que eu pulei.
juro que tentei mudar isso. muitas e muitas vezes. mas a sensação era a de que eu não estava progredindo — porque eu realmente não estava — e, no começo da minha jornada na escrita, a solução era trocar de história, escrever outra coisa.
mas isso gerava outro problema: ao invés de uma história parada, agora eu tinha duas. ou três. ou trinta. literalmente.
quando a escrita se tornou a minha profissão, alguns anos depois de eu ter escrito as primeiras linhas do meu romance de estreia — que nunca viu a luz do dia, aliás, não ainda —, tomei a decisão de me manter fiel a uma única história até terminá-la, mesmo que eu tivesse que usar desses métodos para finalizá-la.
acho que eu não penso linearmente, mesmo.
mas gosto de acreditar que sempre sou capaz de costurar tudo, atar os nós das pontas soltas e aprovar o resultado final do livro.
mas… já tinha algum tempo que eu não escrevia.
nem livros, nem posts, nem textos exclusivos para os meus olhos — eu nunca fui capaz de manter um diário como um diário de fato. só abro a minha página de journal no Notion quando preciso MUITO colocar algo para fora e aquele é o último recurso de todos.
e se a prática leva à perfeição, o que dizer de quando você não pratica há muito tempo?
será que escrever é como andar de bicicleta, que a gente nunca esquece?
ou será que é como uma nova língua, que a gente até vai se lembrar do básico, mas a parte mais profunda se perde por falta de treino e de uso no dia a dia?
a escrita esteve comigo e me fez companhia nos melhores e piores momentos da minha vida.
me deu colo, me consolou, me curou.
até que ela não estava mais.
até hoje não sei se eu falhei com ela ou ela que falhou comigo.
de repente, eu não conseguia me manter em um único projeto, voltei à inconstância dos meus primeiros anos como escritora.
dessa vez, tinha motivo.
eu tinha acabado de me mudar.
minha mente não tava legal.
migrar de um bloqueio para o outro era a minha forma de tentar ao máximo, de buscar um atalho, de tentar encontrar a história mais fácil — ou menos difícil —, de terminar.
era a ansiedade. era o medo. era a decepção comigo mesma.
era a depressão e a tristeza que eu nunca pensei que me acompanhariam no momento mais esperado e feliz da minha vida que também era o mais triste e mais solitário.
a gente deixa para outro dia toda a explicação do meu colapso emocional, mas eu sabia que não estava bem, sabia que precisava voltar a produzir e publicar, afinal a escrita era o meu trabalho principal, mas eu simplesmente não conseguia.
não terminei nenhum livro novo desde que me mudei.
três anos inteiros se passaram desde então. logo, três se tornarão quatro.
e não foi por falta de tentativa.
comecei pelo menos seis novas histórias, isso sem contar nas outras tantas ideias de novos plots e todas aquelas histórias que já estavam na gaveta e também tentei desenvolver durante esse período.
sei que ainda amo escrever, ainda é a minha coisa favorita em todo o universo, ainda sonho em voltar a viver de escrita.
mas também sei que seja lá qual for o meu problema com foco, tem afetado a minha capacidade de ser coesa, de trabalhar bem com uma única linha de raciocínio, de me manter conectada com profundidade nas histórias que crio.
mas esse aqui pode ser o meu recomeço.
a prova de que, sim, eu ainda consigo desenvolver um texto coerente.
ainda consigo contar histórias.
que ainda posso me conectar com a escrita de uma forma diferente, não apenas mergulhando em uma história de romance.
ainda assim, sigo aguardo a coesão voltar para mim como era antigamente.
sei que sinto falta dela.


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